O TRAUMA DE UM CASAMENTO TERMINADO E O MEDO DE SER FELIZ NOVAMENTE

Não é conveniente permitir que uma ferida fique aberta, incomodando, e com o risco de infeccionar, só para que a pessoa que a tem não sinta mais dor por ter de mexer nela.

Melhor é enfrentar a dor de frente, expondo a ferida ainda mais, realizando a assepsia necessária, para só então, suturá-la e permitir que haja uma cicatrização natural.

A metáfora da "ferida aberta" utilizada acima, infelizmente tem uma aplicação prática muito real na vida de muitas pessoas divorciadas que, em virtude de terem sofrido demais com o término de seu casamento, estão literalmente paralisadas de medo: medo de arriscar-se a ser feliz novamente num possível novo relacionamento.

Convém que façamos aqui um esclarecimento: esse medo mórbido sobre o qual estamos falando nada tem a ver com o processo natural de luto, que acontece em toda separação.

O divórcio é um processo doloroso e a perda da outra pessoa inicia um período de luto. Depois da morte física, propriamente dita, ele é o segundo fator mais estressante na vida do ser humano, e a experiência do luto, quase que necessariamente, faz parte dele.

Durante esse período de luto, que leva em média, entre um e dois anos para terminar, toda sorte de sentimentos negativos e contraditórios são experienciados: culpa, raiva, rancor, autodepreciação, inconformismo, desejo de vingança, indiferença forjada, instabilidade emocional, extrema irritação, falta de perspectiva, etc. Esses sentimentos, como que pintam a vida da pessoa de um cinza-chumbo tão pesado que parece que a tempestade nunca terá fim.

No entanto, decorrido os primeiros meses, ao final do primeiro ano e início do segundo, a situação já não é tão negra. Há mágoas, obviamente, mas o tempo tem o condão de suavizá-las. Se tudo der certo, o arco-íris em breve surgirá e o sol voltará a brilhar, trazendo um horizonte novo à vida da pessoa.

É quando se inicia de fato, a oportunidade de um recomeço, de um refazer a vida de uma forma mais feliz. É a chance que se abre para um novo amor, para uma nova perspectiva, para com uma nova e excitante expectativa, cheia de esperanças. Esse é o processo normal.

Mas, não é dele que estamos nos ocupando. Falamos de pessoas que, divorciadas há sete, oito, dez ou mais anos, não conseguem envolver-se emocionalmente o suficiente para apostar tudo numa nova relação. É para essas pessoas que estamos escrevendo.

Se você é uma delas, ou conhece alguém que age dessa maneira, procure refletir no que iremos dizer. Essas pessoas, como que "cristalizaram" ou "fossilizaram" suas emoções. Encontraram mil desculpas para não se envolverem emocionalmente e sofrem muito com isso!

Estão na situação do asno que morreu de fome bem no meio de dois montes de feno, por não ser capaz de decidir qual dos dois iria comer!

De um lado, desejam ardentemente, ser felizes. De outro, deixam-se boicotar pelo próprio medo e acabam fugindo da felicidade. Criam toda sorte de mecanismos de defesa, sob os quais escondem o seu temor.

Algumas se tornam extremamente exigentes: "Só se permitirão envolver-se com alguém socialmente influente; economicamente bem colocado; educacionalmente com formação acadêmica, etc, etc".

Outras chegam a ser cruéis e frias em suas avaliações: A marca, o modelo e o ano do carro do pretendente; seu(s) possível(eis) apartamento(s) de alto padrão, casa de campo, casa de praia, gordo salário e outras coisas como essas, passam a ser a meta a ser alcançada.

Psicanaliticamente falando, está claro que tais pessoas estão simplesmente dificultando as coisas, com o objetivo inconsciente de evitar o temido envolvimento, utilizando-se de expedientes que são apenas "máscaras" que escondem o medo irracional de se envolverem emocionalmente e de "correrem o risco" de serem felizes!

Apenas para lembrar uma passagem bíblica que poria por terra todas essas "pretensas" exigências descabidas, bastaria lembrar I Tm. 6.7-9: "O que foi que trouxemos para o mundo? Nada! E o que é que vamos levar do mundo? Nada! Portanto, se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso. Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição".

É preciso, então, que os processos de "cristalização" e de "fossilização" das emoções comecem a desfazer-se. Quem sabe a leitura deste artigo não seja uma primeira fagulha para permitir que isso aconteça?

A você, meu/minha querido (a) leitor (a) que sabe que se encontra na situação que descrevemos, e entende que, para ser feliz é preciso sair dela, lançamos-lhe um desafio: Sob a direção de Cristo, Senhor de nossas vidas, assuma com coragem, o destino de suas próprias decisões. Dê a si mesmo (a) a chance de voltar a ser feliz!

Encerrando este artigo, para a sua reflexão, deixamos o riquíssimo texto, que muito tem a ver com o que aqui tem sido abordado. Receba-o como um presente!

Arriscar é Viver

"Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar a expor seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor suas idéias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer.
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.
Mas...é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...
Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer,
mudar, viver...Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão de sua liberdade. Só a pessoa que se arrisca é livre...
Arriscar-se é perder o pé por algum tempo?. Não arriscar é
perder a vida..."

(Soren Kierkegaard)

E, não se esqueça: ao contrário do que muitos preferem acreditar, a vida não é uma esfera indestrutível de aço. A vida é uma tênue e frágil bolha de sabão, que pode se arrebentar e sumir a qualquer momento. Convém arriscar-se a ser feliz...antes que a bolha de sabão já não exista.

Que tal pensar um pouco nisso?

Antônio Tadeu Ayres

publicado por Antonio Tadeu Ayres às 19:11